• 30
    set
    2008
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    2 comentários em O João de Barro

O João de Barro

Não há dificuldade de se reconhecer um ninho de João de Barro (furnarius rufus). Na vizinhança imediata, nas árvores que as rodeiam ou nos paus dos currais, encontra-se uma casinha deste amigo do homem. Até nos postes elétricos e telefônicos, como se quisesse colocar-se em contato com a sociedade, vê-se uma bola de barro, que mais parece um diminuto forno antigo de padeiros.

Não alcança o tamanho de um sabiá. É na cabeça e dorso, se não tirante ao roxo, de cor ferrugem acanelada e na parte inferior mais claro, tendo o peito quase branco. Na Argentina ele é conhecido como “HORNERO (forneiro devido ao formato do ninho, semelhante a um forno barro)”. Na Bahia e Pernambuco é conhecido por “AMASSA-BARRO”

Tem esta ave um porte corajoso, nada tímido, chega-se com estranha confiança bem perto do homem, corre, pula e grita, como que dando risos e gargalhadas, como se soubesse que é bem vista e bem vinda.

O que todos mais admiram  é vê-lo, ouvi-lo cantar com sua forte voz que pode-se comparar ao entoou do galo, batendo também como este as asas, imitando-lhe a toada que vai de alto a baixo, acompanhado quase sempre pela fêmea. Tem a mania de interromper as pessoas, que ao pé dele conversam e de cobrir com a sua estridente voz a humana, de sorte que não resta mais do que resignar-se ao silêncio até que emudeça.

A ousadia e atrevimento desta ave, que é estranha a todos que pela primeira vez a observam, têm uma razão no respeito que lhe devotam. Pois os olhos  não só dos brasileiros mas também dos povos do Rio da Prata, passa por ave santa e cristã. O joão-de-barro não trabalha no domingo. E, se por acaso, for surpreendido neste dia santo na construção da sua casa o vulgo alucinado encontra uma razão que explique esta exceção, por exemplo, para que depois de uma seca deve aproveitar o aguaceiro com que prepara o barro necessário. Caso contrário, ficaria sem albergue para si e seus filhos. Como as Igrejas têm a porta para o oriente, assim também ele dá a abertura e rumo do seu ninho a mesma orientação. Há, entretanto, naturalistas que dizem que não é regra.

Reconhecem, todavia, que nosso pássaro produz uma obra arquitetônica que é capaz de excitar admiração. Primeiro lançam ambos, macho e fêmea, os alicerces ou formam de barro da estrada, o soalho da casa, trazendo-o em glóbulos do tamanho de uma bala de espingarda, que com o bico e os pés estendem. Sobre este plano de 22 cms de comprimento, começando ao mesmo tempo por dois lados opostos, levantam as paredes  da casa, que, quando em certa altura, deixam secar. Recomeçam a obra, dando as paredes já uma inclinação para dentro e, depois de mais uma interrupção, dão-lhe a última mão, fechando a começada abóbada e deixando a mencionada abertura oval. Dividem a casa por uma parede interior em dois compartimentos, servindo o anterior como a ante-sala, de onde se pode alcançar por outra abertura para a câmara reservada para a própria cama dos filhotes. Assim estão seguros contra a importunação de certas aves rapinas.

A cama era revestida de feno, de penas de galinha ou flores de algodão. O casal, como em tudo, são inseparáveis, também revezando o difícil trabalho de incubação dos ovos e da alimentação dos filhotes.

Podiam-se se chamar símbolo da vida doméstica e é por isso que os brasileiros gostam de vê-lo e ouvi-lo pela vizinhança.
Quando o João de barro e a Maria-de-barro assumem compromisso, é para todo o sempre. Eles vivem sempre em casais que nunca se separam. Quando morre o companheiro passam o resto da vida só.

Muitas vezes encontram-se seus ninhos sobre as estacas dos currais e cercas dos caminhos ao alcance da mão, porém ninguém tiram-lhe os ovos. Um pássaro tão social e tão habilidoso não devia carecer de alguma virtude extraordinária: “em casa com ninho de João de barro não cai raio”. Tão pouco se admira que tenha uma lenda que é mais uma prova de como as idéias dos antigos guaranis foram herdadas, posto que modificadas, por seus modernos descendentes.

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by Anna Rebello